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BOA BASE PARA TROCAS



Ok, importamos mais petróleo e, em troca, exportamos o quê?

Marcelo de Oliveira Passos

O governo, principal acionista da Petrobras, vem represando os aumentos de preços do petróleo porque sabe que o impacto de um eventual recrudescimento inflacionário nas expectativas da população e também conhece o prejuízo político do descontrole de uma inflação que já não está baixa. Houve um descompasso entre o aumento da demanda por combustíveis, nos últimos anos, e a fraca expansão da produção de derivados de petróleo.

Um raciocínio microeconômico bastante simples mostra que, pelo lado da demanda, no ano de 2008, conforme dados da Anfavea, as vendas de veículos automotores atingiram 55 milhões. No ano passado, foram 71 milhões de automóveis vendidos. Este aumento na demanda de 29% se traduziu em uma expansão de 44% nas vendas de gasolina no período de 2008 a 2011, segundo dados da ANP.

Do lado da oferta, a produção de gasolina foi aumentada em somente 20% , conforme dados da mesma ANP.

No Brasil, o preço médio por litro de gasolina vendido pela Petrobras aos postos, é de R$ 1,20, enquanto o preço médio internacional é de R$ 1,53, de acordo com a revista Exame. Isto representa uma diferença de 27,5%. No diesel, esta diferença é ainda maior: 33%.

A Petrobras é monopolista no segmento industrial de refino de combustíveis. Os lucros deste segmento são vitais para a solidez financeira da estatal. Também são importantes para a manutenção de um nível de rentabilidade sobre as vendas que garanta o enorme montante de investimentos futuros necessários para extrair o óleo da camada do pré-sal.

As quedas dos lucros trimestrais da Petrobrás, os níveis de investimento abaixo dos desejados pelos acionistas e o fato de a estatal ter atingido 98% do limite da capacidade de refino no terceiro trimestre deste ano, conforme dados do Centro Brasileiro de Infraestrutura permitem supor que não é exercício de futurologia crer na probabilidade de os preços da gasolina sofrerem novo reajuste em futuro próximo.

Obviamente, aumentar preços da gasolina é sempre uma medida impopular, por gerar perda de bem-estar dos consumidores e pressões sobre índices e expectativas inflacionárias.

Não se advoga, neste artigo, tal medida. Para evitar este aumento de preços e para garantir a expansão da oferta de combustíveis, no curto prazo, o caminho escolhido pela Petrobras tem sido o aumento das importações de combustíveis.

Em 2010 estas importações eram de 500 milhões de litros; de janeiro a setembro deste ano, tal cifra atingiu 3,7 bilhões. Aumento de 640% em menos de dois anos. O aumento das importações permite que a Petrobras ganhe tempo até que ocorra a maturação de alguns dos seus vários projetos de investimento no aumento da capacidade de refino, extração, logística, infraestrutura etc.

Seria desejável, contudo, que este aumento da capacidade brasileira de importar petróleo se revertesse na ampliação de mercados para nossos principais produtos de exportação. Isto só pode ser feito no âmbito de acordos comerciais entre o Brasil e países produtores de petróleo com escassez de alimentos.

Existem vários países membros da Opep que não possuem ampla oferta de alimentos com baixos preços. Angola, Argélia, Nigéria, Iraque, Irã, Kuwait e Catar, são apenas alguns exemplos. Infelizmente, não se verifica no âmbito do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e do Ministério das Relações Exteriores um esforço concertado de negociação que promova a ampliação de novos mercados para nossos principais produtos de exportação.

Não há nenhum problema em importarmos mais petróleo para atender nossa maior demanda. Mas, em troca destas importações, o que poderemos exportar a mais?

Com quais países poderemos negociar nossos produtos exportáveis em troca de maiores compras de petróleo? Por que não iniciamos estas negociações rapidamente, uma vez que os países desenvolvidos e com economias mais abertas raramente perdem oportunidades de vender mais em troca de maiores compras?

Marcelo de Oliveira Passos é professor de Organizações e Mercados/Economia Aplicada na Universidade Federal de Pelotas (RS)

(19/11/2012)