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A COR DO TRABALHO



Novo estudo da Seade/Dieese mostra que, mesmo com a melhora nas condições de trabalho de brasileiros negros nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Salvador e São Paulo, ao longo das últimas décadas, ainda persistem diferenças significativas em relação ao trabalho dos não negros.

Os negros são maioria no mercado de trabalho: cerca de dois terços da População em Idade Ativa e da População Economicamente Ativa e em Salvador chegam a 89% desses totais. Em Fortaleza e Porto Alegre, as taxas de participação de negros e não negros são semelhantes, mas entre 2010 e 2011, houve ligeiro crescimento da taxa de participação da população negra na capital gaúcha.

O estudo tem dados de 2011 e os compara com os de 2010. Os negros são também maioria em "ocupações mais precárias, caracterizadas pela ausência de proteção social e jornadas de trabalho mais extensas e, por consequência, menores remunerações".

Em 2011, na maioria das regiões pesquisadas, o setor de serviços absorvia mais da metade dos ocupados totais, exceto nas regiões metropolitanas de Fortaleza e de São Paulo, nas quais os ocupados negros eram 43,3% e 48,8%, respectivamente. Na indústria, segundo setor de maior participação na ocupação, a proporção de não negros superava a de negros (18,4% contra 17,2%) na região de São Paulo, Na de Fortaleza, o comércio e a indústria possuem igual proporção de ocupados negros (19,2%).

Na construção civil e nos serviços domésticos, predominam os ocupados negros em comparação aos não negros. Na construção civil, o setor tipicamente masculino, verificou-se que o percentual de negros foi bem mais elevado do que não negros, como em Porto Alegre (17,6% de homens negros ocupados e 10,2% de não negros).

Nos serviços domésticos, a ocupação da população negra feminina tem sua maior expressão: uma em cada cinco mulheres negras ocupadas trabalha como doméstica.

O estudo mostra, também, que, de 2010 para 2011, a inserção a das mulheres negras no mercado de trabalho foi superior à das não negras em todas as regiões metropolitanas, especialmente na de São Paulo (58,2%) e na do Distrito Federal (57,0%).

Rendimentos
Por essas e outras, é grande a diferencia entre os salários pagos: na média de todas as regiões, a proporção de assalariados negros e não negros foi acima dos 60,0%. Nas regiões de Belo Horizonte, Porto Alegre e no Distrito Federal a participação dos assalariados negros e não negros é semelhante e representa mais de 70,0%, no total de ocupados de cada região.

No assalariamento privado, proporcionalmente, os ocupados negros estão mais representados que os não negros com carteira de trabalho assinada nas regiões de Belo Horizonte, Distrito Federal, Porto Alegre, Salvador e São Paulo.

No setor público, onde o ingresso ocorre principalmente por concurso público, é notável a menor presença entre os ocupados negros em relação aos não negros em todas as regiões investigadas. A explicação para essa diferença possivelmente tem origem no fato de cerca da metade dos assalariados públicos possuírem nível de escolaridade superior.

A maior distância entre negros e não negros assalariados no setor público foi observada no Distrito Federal: 19,8% contra 28,7% (dados de 2011).

Carteira assinada & jornada
Outro detalhe: os negros são os mais numerosos entre os ocupados sem carteira de trabalho assinada, entre os trabalhadores autônomos e os empregados domésticos. A jornada média semanal de trabalho dos ocupados negros foi superior em uma hora nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Fortaleza, Recife e Salvador. A jornada de trabalho mais extensa foi registrada na do Recife, com 45 horas semanais.

Na região metropolitana de São Paulo, para uma mesma jornada média de 42 horas semanais, o rendimento mensal dos negros correspondeu a 61,7% do recebido pelos não negros. O valor da hora trabalhada dos ocupados negros correspondia a 60,9% do valor pago aos não negros. A situação é melhor em Fortaleza (salário de 73,3%) e Porto Alegre (70,6%).

As mulheres negras têm sempre rendimento médio menor, na comparação com o pago aos negros (que é menor que o pago aos não negros): o valor médio real por hora trabalhada das mulheres negras ocupadas correspondeu no máximo a 58,3% (em Porto Alegre) e 58,6% (em Fortaleza), do valor auferido pelos homens não negros. E, no mínimo, a 50% (DF e São Paulo).

Desemprego
Até na redução do desemprego a situação é mas difícil para os negros: as mulheres negras são o grupo com taxas mais elevadas de desemprego: na região metropolitana do Recife, as mulheres negras desempregadas (18,1%) eram mais que o dobro dos não negros desocupados (9,0%). A menor distância foi observada na região de Fortaleza (11% para as negras 11,0% e para os não negros, 7,1%).

No ano passado, os negros foram maioria (60% ou mais) entre os desempregados na maioria das regiões, exceto nas de Porto Alegre (18,2%) e São Paulo (40,0%). Detalhe: na região metropolitana de Porto Alegre, 12% da PEA são trabalhadores negros, mas são mais numerosos (18,2%) no total de desempregados. Na de Salvador, os negros desempregados são 92% do total - e 89,0% da PEA.

(19/11/2012)