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MEMORIAL PARA UM JORNALISTA DE PLACA



"Encarar a vida sem Joelmir Beting é uma incógnita, pois ele serviu de bússola a duas gerações de brasileiros, ao decifrar diariamente a economia em jornal, revista, rádio, tevê e internet". A frase é de Lucila Beting, com quem Joelmir se casou em 1963 e trabalhou dos anos 1980 até 2000.

Cecilia Zioni

Na semana da morte do marido, Lucila decidiu voltar ao trabalho: quer transformar seu legado em um acervo aberto a "todos que se acostumaram a ler e ouvir seus comentários, marcados pela sabedoria da simplificação, por bom humor e estilo elegante". A forma ainda não está definida, mas o projeto começa a ganhar contornos: a ideia é abrir textos, análises, comentários, reportagens e entrevistas para consulta do "público que ele tanto respeitou, público que também o amou e que se declara, nas muitíssimas manifestações agora recebidas, um pouco órfão", diz Lucila.

"Museu Joelmir Beting" era o nome dado por ela, de brincadeira, às gavetas e prateleiras do escritório onde juntava fotos, fitas, vídeos e filmes, recortes, revistas e jornais, medalhas, convites, troféus e cartazes referentes à sua trajetória. Esse legado será a base do que ela agora chama de "Memorial Joelmir Beting".

Foram 55 anos desde o primeiro emprego de Joelmir, em 1957, como revisor nos jornais A Tarde e O Esporte - onde depois foi repórter de futebol. Em 1966, começou a escrever, na Folha de S.Paulo, uma coluna sobre o mercado de automóveis - na época em que, como Joelmir brincava, a economia servia para "separar o turfe dos classificados".

Com o dito milagre econômico, o assunto ganhou espaço nos jornais e, em 1968, Joelmir tornou-se editor de economia do jornal. Em 1970, inaugurou a coluna diária "Notas Econômicas", publicada simultaneamente por até meia centena de jornais brasileiros durante mais de três décadas.

Efeito da enorme repercussão de sua coluna, Joelmir foi convidado a fazer comentários em emissoras de rádio e tevê. Nos anos 1970, já falava diariamente, em cadeia de 25 emissoras brasileiras, pela rede da Jovem Pan. Foi comentarista das rádios Gazeta, Bandeirantes, Globo e CBN. Na TV Record, apresentou o primeiro programa de tevê diário dedicado à economia ("Reunião de Diretoria"), sucessor de seu programa semanal, "Multiplicação do Dinheiro", da TV Gazeta.

Consagrado como inovador da linguagem econômica, passou a ser disputado pelas maiores redes de tevê. Foi um dos primeiros âncoras em telejornais brasileiros e comentarista de economia da Globo (de 1985 a 2003), e do Grupo Bandeirantes de Televisão (de 2004 até o mês passado). Escreveu dois livros, "Na Prática, a Teoria é Outra" e "Os Juros Subversivos".

A empreitada, agora, é reunir tudo o que ele escreveu, ao longo desses anos, em jornais, revistas, rádio, tevê e internet. E, pelo Memorial, tornar esse material disponível para estudantes de economia e de jornalismo, para economistas e jornalistas, para professores e historiadores, e para o público em geral.

No Memorial, além da análise econômica, a atuação de Joelmir no jornalismo esportivo será um capítulo especial. Ele se destacou nessa área, por exemplo, por ter sido dele a ideia e a realização da placa em homenagem a um gol histórico de Pelé, origem da expressão gol de placa.

Nas últimas décadas, várias testes, estudos e pesquisas acadêmicas tiveram Joelmir como tema. O Memorial pretende reunir o maior número delas. Promover a análise da obra do "tradutor do economês", ou "Chacrinha da economia", como ele chegou a ser chamado, é, sem dúvida, tópico importante para a história da imprensa brasileira.

Boa parte de textos de Joelmir será, por sugestão de Lucila, transformada em material didático. Ela também estuda que destino dará à sua coleção de livros e documentos. Para ele, importante era o livro ser lido. Fazia doações regulares a bibliotecas, não pedia de volta um volume emprestado e até dava livro ainda não lido a quem demonstrasse interesse. Assim, a ideia é doar sua coleção a alguma "faculdade de economia nova, ou pequena, preferentemente da periferia", como fazia com duplicatas ou livros que não queria mais reter em seu escritório.

A prioridade do Memorial será atender os jovens. Eu, cunhada de Joelmir e sua colega na Folha e no Estado, dos anos 1970 a 1994, com ele na Band desde 2004, e coordenadora deste site, estarei nesse projeto, ao lado de outros jornalistas da família.

Para Joelmir, a educação era causa e efeito do emprego - ou da falta dele. A desocupação entre os mais jovens era seu tema recorrente, mesmo em tempos de expansão na oferta de emprego.

Chamo atenção para o que ele escreveu, em julho de 2011: "A economia e a sociedade tentam fazer a transformação do Brasil pela educação. Mas antes o país terá de fazer uma revolução na própria educação. O mercado de trabalho em expansão está desajustado. Veteranos ocupam o vácuo de reposição da mão de obra qualificada mais jovem e mais escassa. O estudo virou trabalho, o trabalho virou estudo. Só a educação brasileira ainda não foi avisada disso. Ela continua de costas para o mercado de trabalho em ebulição, nos níveis básico, médio e superior". ELO PERDIDO

Joelmir falava pouco sobre o que faria quando se aposentasse - aliás, "se se aposentasse", como dizia. E não parou. Trabalhou até quando pôde e deixou projetos e livros inacabados. O desafio da família é fazer com que ele continue a formar as novas gerações de brasileiros.

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Cecilia Zioni, jornalista, foi repórter e editora na Folha de S. Paulo, no Estado de S. Paulo e na Gazeta Mercantil, de 1970 a 2001; desde 2004, trabalha com Joelmir na Band e na coordenação deste site

(06/12/2012)