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PÁRIAS DO QUATRILHÃO



"A indexação é instrumento de primeira classe para economias nacionais de quinta categoria." De Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia
Joelmir Beting

Combinados. Se a inflação anual escapulir da jaula de um dígito, por um trimestre corrido, a sociedade brasileira, alegremente, cuidará de reindexar todos os preços, contratos e salários. Afinal, temos algo mais que memória da indexação; temos saudade dela. Assim como os argentinos têm memória e saudade da dolarização.

A batalha da ponte, a que decide a guerra, é não deixar o IPCA transitar acima de 10% - sinal amarelo para a reindexação ampla, informal e irrestrita da economia sem juízo. Se a encrenca situar-se acima de 20%, aí estará ligado o sinal verde para a recarga de todos os usos e abusos da correção monetária automática, com sua pavorosa inércia inflacionária.

Um IPCA de 20%, se tempestivamente reindexado, alcançaria 200% em meio ano. Ou seja: o Brasil é hoje o único país do mundo que não mais terá inflação de 80% ao ano. A coisa será ou de 8% ou de 800%. A Argentina, aqui ao lado, ainda se permite brincar com inflação de exatamente 80% agora em 2002.

Sem mistério: a indexação assopra e morde. Ela neutraliza os efeitos da inflação, realimentando a energia da própria. Ai é que mora o vírus da inércia inflacionista: se todos os preços e contratos são corrigidos hoje pela inflação de ontem, a inflação de amanhã jamais ficará abaixo da inflação de hoje.

Pois nos últimos meses do indigitado cruzeiro, tabelas de fábricas e de lojas chegaram ao requinte da remarcação, não mais pela inflação passada, mas pela inflação futura (projetada diariamente pela taxa over). Lembram-se?

E deu no que deu. A inflação indexada morreu de rir dos congelamentos e dos tabelamentos de Sarney & Collor, esnobando de passagem ciclos de recessão e de confisco. Não foi para menos. A pajelança durou 30 anos, hospedou os preços e não apenas contratos, aplicou a correção plena da inflação cheia em quase todos eles e praticou a reposição diária e não apenas a correção anual.

Resultado: a inércia inflacionária acumulou em três décadas uma inflação ponta a ponta de 16 dígitos. Um IGP-DI(FGV) de 1,1 quatrilhão por cento! Perdemos a noção disso porque tivemos de fazer quatro reformas monetárias no período, sacando em cada uma delas três dígitos da moeda nacional derretida.

Perdemos o senso da coisa porque estávamos sob proteção da própria indexação. Os governos divertiram-se adoidados. Eles faziam correção plena das receitas, mas não das despesas. As empresas operavam exclusivamente com a moeda veloz corrigida no banco ou no contrato. E a classe média contava com reposição, ainda que não integral, nos salários em carteira, nos ativos financeiros, no patrimônio imobiliário, no carro próprio dolarizado...

A tragédia é que havia uma ninguenzada de quase 40% da população brasileira portadora da moeda podre, o dinheiro na mão ou no bolso, fora do banco ou do contrato. Arrimo com correção zero, reposição zero, proteção zero. Gente rebaixada, ainda hoje ao nível da sobrevivência biológica do cachorro vira-latas.

Secos & Molhados
Espanto 1 - Espanta-me que políticos e assessores em campanha insistam em cacarejar os efeitos afrodisíacos de uma "pequena inflação" desenvolvimentista. Como se houvesse um dilema estabilidade monetária versus crescimento econômico. Nada disso. A estabilidade é o fator condicionante. O crescimento é o fator condicionado.

Espanto 2 - Espanta-me que estudiosos brasileiros versados em concentração de renda ainda não tenham produzido referências de peso sobre a indexação nos estudos da desigualdade social. De resto, nem referências de fundo sobre a desigualdade social nos estudos da indexação.

Espanto 3 - Espanta-me que posseiros da justiça social nutram simpatia pelo doping inflacionário da economia estagnada, apostando no anestésico de uma reindexação compensatória. Certamente, eles nunca ouviram falar dos parias do quatrilhão, o terço de baixo de nossa população.



(Este texto foi originalmente publicado em "Veja", dezembro 1996)

(09/08/2007)