.
ESTAMOS EVOLUINDO



Só mangueira que dá manga leva pedradas.
Sebastião José Beting (1900-1963), meu pai

O que era uma discussão corporativa em torno da escolha profissional deste jornalista adernou para a polêmica horizontal em torno da decisão administrativa dos jornais punitivos.
Nesta altura, acaba de transbordar para o questionamento tardio dos padrões éticos do próprio jornalismo brasileiro.


QUAL ÉTICA ?
Afinal, de que ética estamos falando pelos cotovelos? A ética do jornalista? A ética do jornal? A ética do jornalismo?
A ética do jornalismo é ascética e meridiana: a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade.
A ética do jornalista é a ética da consciência.
A ética do jornal é a ética da conveniência.


MEIA DE NYLON
Sim, ética de conveniência por dever de ofício. Ou por vocação do negócio. Grupos de mídia trocam de ética quando trocam de donos, quando trocam de parceiros, quando trocam de patrocínios, quando trocam de partido, quando trocam de governo, quando trocam de religião. Não raro, trocam de ética veículo por veículo no interior de um mesmo grupo.
Ética meia de nylon, tamanho único.


ESTOU FORA
Repito que minha relação com os jornais em rede não é de emprego nem de trabalho. É relação de negócio ou mercado. Eles compram minha coluna de um distribuidor, a Agência Estado. Que acaba de me oferecer condições vantajosas para prosseguir de posse dos direitos da coluna. Sem grilo. É vínculo contratual de pessoa jurídica com pessoa jurídica.

Nada contra as normas da casa no perímetro de cada empresa. O problema é que eu não quero, não posso e não devo submeter-me a manuais de conduta diferenciados de duas dezenas de jornais em rede. Ética não é commoditty.

Já imaginaram uma fábrica de sapatos, servida por atacadistas, obrigando-se a praticar os padrões de mercado de cada loja ou de cada rede de varejo?


SOB DISFARCE
O certo é que não misturo jornalismo com publicidade. Assim como jamais misturei jornalismo com minha atividade lateral de palestrante e consultor. Que exerço há mais de 30 anos.

Se há conflito de interesses e vácuos de credibilidade no rodapé da isenção jornalística não é o da publicidade comercial explícita e transparente. É o de empresas e profissionais envolvidos diretamente com partidos e igrejas. Ou de políticos de carreira e governantes da vez que controlam grupos de mídia.


SOB CONTROLE
Reafirmo que sempre tratei a publicidade comercial como atividade econômica relevante e como parceiro preferencial do jornalismo moderno. Sobre estimular negócios e expandir mercados, os anunciantes financiam a indústria da comunicação, garantem o emprego e o salário dos jornalistas e preservam a independência material e a liberdade política das boas empresas do ramo.

Ademais, a publicidade comercial está sob a blindagem do controle social. O jornalismo brasileiro, ainda não. Anunciantes, agências e veículos são signatários de código de auto-regulamentação (Conar) que previne e/ou reprime a propaganda enganosa, a publicidade predatória e a subversão da concorrência. Personalidades públicas com poder de convencimento ou persuasão - atores, atletas, cantores, apresentadores, jornalistas e notórios profissionais liberais - são co-responsabilizados em lei quando veiculam anúncios de produtos ou serviços fajutos que venham a causar perdas e danos ao público.

A publicidade comercial está igualmente sob o império da legislação de proteção do consumidor (Procon). E cadê o estatuto de proteção do leitor, do ouvinte, do telespectador?


PRA ENCERRAR
Por uma baciada de manifestações que acabo de recolher e arquivar de jornalistas, publicitários, empresários de mídia, executivos, políticos, acadêmicos, estudantes e leitores em geral, chego à conclusão de que o "caso Joelmir" resume-se a um episódio mal administrado por apenas dois de duas dezenas de jornais que publicam minha coluna diária. Decisão precipitada por julgamento preconceituoso e por formalismo anacrônico.


São Paulo, 11 de dezembro de 2003

(11/12/2003)